Manuel Castells contextualiza a evolução da internet enquanto tecnologia de comunicação que transforma o modo de estabelecer o ato comunicativo. O autor é pertinente ao não aventurar-se a fazer previsões sobre o futuro, admitindo a complexidade da percepção do próprio presente.
É dado um foco mais especial sobre dados e fontes da América do Norte, onde a internet desenvolveu-se mais e onde há mais informação disponível. No entanto, percebe-se que diversos exemplos e conceitos extrapolam a realidade norte americana, mostrando realidades de outros países e continentes e provando quão abrangentes são os efeitos da internet sobre as diversas sociedades atuais.
“A Galáxia da Internet” trata das novas formas de sociabilidade que foram criadas com a internet, das implicações políticas e novas formas de participação de cidadania e movimentos sociais – que leva também à discussão entre liberdade e privacidade em novos modelos de comunicação. Nesse sentido, também podemos despertar questionamentos acerca da esfera pública vs. esfera privada no âmbito do trabalho. Se antes, havia a distinção entre espaço privado (casa) e público (trabalho), hoje há alteração das relações de trabalho – o trabalho é levado para dentro de casa e ameaça a fronteira público-privado antes estabelecida, destruindo o espaço de intimidade –, de forma contrária ao que Walter Benjamin (Passages) colocava: “Para o indivíduo, os lugares de habitação encontram-se pela primeira vez em oposição aos lugares de trabalho. Aqueles vêm a constituir o interior; o escritório é o seu complemento”.
Sobre a modificação quanto às concepções de trabalho, há uma nova noção de emprego, bem diferente da tradicional. Não se pensa mais o emprego enquanto fator que remete à estabilidade, com rigidez de horários. Percebe-se que há uma flexibilidade maior, com trabalhos parciais, temporários, de consultoria e o conseqüente aumento da rotatividade de empregos em curto espaço de tempo.
Na globalização, caminhamos no sentido da simultaneidade, da instantaneidade, da compactação do espaço-tempo que Virilio explica em “A velocidade de libertação” (2000). A obra de Castells traz também uma reflexão acerca da noção de tempo e de espaço que é alterada a partir da familiarização com os meios eletrônicos. Distâncias são superadas; o tempo não é mais um obstáculo; o lugar virtual pode ser configurado como “lugar”, diante do sentimento de identidade e pertencimento em relação a uma rede social eletrônica. Ao mesmo tempo, o cotidiano nos mostra a quantidade de tempo que gastamos com media eletrônicos e como isso afeta nossa concepção de tempo e de organização pessoal, de escolhas.
Outro ponto relevante é o da manipulação da imagem. Afinal, até que ponto a tecnologia transforma e tenta manipular conceitos e imagens? Castells coloca seu conceito de “política informacional” (Castells, 1997) para falar sobre a comunicação com o governo via meios de comunicação – que por sua vez influenciam o comportamento eleitoral e a imagem dos candidatos. Também é utilizado o conceito de “política do escândalo” (Thompson, 2000; Rose-Ackerman, 1999), prática que filtra informação de um candidato em detrimento de seu adversário ou produz contra-informação visando restaurar a imagem de um político desagravado.
A obra de Castells é fundamental não só a estudantes e pesquisadores de Comunicação, mas a qualquer indivíduo. Compreender como a internet influencia e está presente na vida das pessoas é primordial para entender o que está ao nosso redor, porque tudo está interligado nessa complexa teia, que é a sociedade em rede, e dela dependemos até mesmo quando estamos off-line.
Na obra “A Galáxia Internet”, um novo ambiente (ou mundo) de comunicação é descrito e contextualizado por Manuel Castells, através de um termo que menciona outra galáxia anteriormente proposta – a Galáxia Gutemberg – por um dos grandes pensadores da comunicação: Marshal McLuhan. A explosão da utilização da internet como sistema comunicativo e como forma organizacional motivou Castells a analisar seu surgimento e sua evolução na sociedade em que vivemos, ressaltando sua influência enquanto tecnologia e prática social.
Apesar de ser recente, essa “galáxia”, como o próprio autor nomeia, trouxe implicações político-econômicas importantes e possibilitou um desenvolvimento tecnológico e cultural sem precedentes. Outro aspecto colocado quanto à história da internet é o surgimento desta tecnologia com propósito de defender informações militares durante a Guerra Fria, e que, posteriormente, vem a ser uma das principais medias interativas e de compartilhamento de informação.
Os próprios usuários da internet contribuem para a evolução de seus usos e sua realidade, se considerarmos que há interação quando esta transforma a maneira de comunicar – a comunicação baseia qualquer atividade humana –, enquanto os usuários a transformam, utilizando-a para várias tarefas. Ela é o meio pelo qual os usuários se expressam por meio de um código específico, mas não altera nenhuma situação global sem que seu contexto seja modificado previamente.
Na análise da internet sob o aspecto cultural, a obra traz uma interação também entre rede e cultura e diferencia os usuários produtores dos usuários consumidores. São apresentados efeitos positivos e negativos da internet na Era da Informação – espaço ideal para o desenvolvimento da interação e da comunicação, mas também da manipulação –, assim como o impulsionamento da formação de redes em uma nova estrutura social. Esses nós interligados (redes), apesar de antigos na atividade humana, sobreviveram por serem essencialmente flexíveis, abertas e adaptáveis. Diante das modificações pelas quais a sociedade vem passando – e da influência da internet e de outras tecnologias de informação e comunicação, decorrentes da revolução microeletrônica –, as redes deixaram de estar circunscritas ao âmbito da vida privada e surgiu a necessidade de globalizar.
A internet suplanta a ideia de um media capaz de comunicar de muitos para muitos em um determinado tempo e em uma escala macro: seus usos podem influenciar e alterar todas as áreas da atividade humana. Junto a ela surgem oportunidades e desafios, soluções e problemas, a depender do contexto de cada indivíduo e de como ele utiliza essa poderosa tecnologia. Ainda permanecem na sociedade as relações de poder e, por isso, a internet pode libertar, mas pode também oprimir; ela pode incitar a invenção e a criatividade, mas pode também desencadear insegurança, tendo em vista a possibilidade de criarem-se novos meios de exploração. Se, por um lado, a exclusão tecnológica, atualmente, é uma das piores formas de exclusão econômica, cultural e política do indivíduo, por outro, mesmo com limitações de difusão e com o atraso tecnológico de muitos lugares do mundo, a internet consegue fazer com que seu poder de influência ultrapasse seu número de usuários.
Castells apresenta tanto estudos os quais mostram que a internet não prejudica a sociabilidade dos indivíduos, quanto outros que argumentam sua influência na tendência do isolamento. Mas não se pode negar que a internet propiciou que as comunidades pudessem ser formadas sem obstáculos relacionados ao tempo e espaço. Se antes, fazer parte de um grupo, interagir e poder pertencer a uma comunidade eram fatores condicionados ao espaço geográfico, por exemplo, hoje não haveria mais essa limitação. O autor explica que o domínio de novas linguagens (dos meios eletrônicos) pode favorecer a socialização de conhecimento, mas que isso ocorre de maneira limitada. Manuel Castells adota a definição de Barry Wellman (2001), na qual comunidades são redes interpessoais que levam à sociabilidade, sentimento de pertença, identidade e informação (p.157).
A convergência mediática na internet de outros suportes de media como rádio, impresso e livros também é abordada na obra. Somente através da internet é possível ouvir há milhares de quilômetros de distância um programa de rádio da cidade natal de uma pessoa, por exemplo. É a fusão entre global e local: “a liberdade para ultrapassar a cultura global em busca da identidade local própria é possível graças à Internet, em uma rede global de comunicação local” (p.233).
Quem é responsável pelo controle e orientação desta atividade teccnológica que modifica-se muito mais rapidamente que os sujeitos a ela atrelados? Para Castells, de nada adiantará deixar para o governo, para empresas ou para ONGs a responsabilidade de agir em prol do interesse público, mas cabe a cada indivíduo a incumbência do que faz e do que se passa à sua volta. O autor, porém, ressalta a necessidade das instituições e da representação política através da democracia participativa, pois, é preciso reconstruir as instituições de governo – caso contrário, as redes teriam que ser reconfiguradas em torno dos projetos pessoais de cada pessoa e é impossível viver sem elas.
“A internet não é um instrumento de liberdade, nem é uma arma para exercer o domínio unilateral” (p.197). Castells não defende que a internet oferta liberdade, porque ela “nunca é algo oferecido”, mas pondera que ela é importante para a liberdade de expressão e democratização.
A questão da info-exclusão e da marginalização aos que não têm acesso a esse meio de comunicação, pode ser considerado contraditório ao termo “Era da Informação” e à democratização à qual tanto a internet remete. Castells mostra como a conectividade nos lares cresceu e as diferenças de acesso diminuíram, mas que em alguns locais ainda são muito díspares. A velocidade do acesso (banda larga) também configura como aspecto de desigualdade tecnológica. Um outro fator imprescindível nesta análise é o fato de a maioria dos conteúdos disponíveis na internet estarem apenas em inglês – exigindo o domínio desta língua para sua compreensão.
Fonte: CASTELLS, M., (2004). A galáxia Internet: reflexões sobre Internet, negócios e sociedade. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian.
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