sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pão e Circo Jornalístico


O auditório estava lotado. Centenas de estudantes esperando por ele – que era “o cara” do jornalismo esportivo, o “bam-bam-bam” das inovações no estúdio e da improvisação na TV.

Quando chega, todas as atenções estão voltadas a ele: bonitinho, loirinho, olhos claros, simpático e sorridente. Entra discretamente, senta em uma das cadeiras reservadas aos convidados e palestrantes no palco e, um tanto sério, abre seu Macbook White, da Apple. 

Logo a feição de seriedade desaba em risos. Ele estava “twittando” com alguns espectadores do auditório, que também estavam conectados à internet. A plateia percebeu logo que o bate papo seria bem humorado, pelas expressões no rosto mais esperado do evento.

Pensei logo que, se fosse deixar para o final da palestra, não conseguiria minha foto com ele. Corri para o palco, enquanto ele era pouco assediado ainda, e tirei uma, duas, três fotos ao lado de um dos nomes mais comentados na minha roda de amigos. É, eu “tietei” por antecipação. Depois de mim, foram um, dois... dez querendo, de uma vez só, uma foto com ele. 

Começa o momento mais esperado: o “grande repórter de jornalismo esportivo do momento” começa a falar de suas experiências (mesmo tão jovem) e de como funciona o sistema de uma grande TV (mesmo estando há tão pouco tempo no mercado). As pessoas estavam concentradas nele, como se ali estivesse um prêmio Nobel em conferência exclusiva a um grupo seleto da humanidade.

Ele contava casos e causos, fazia piadas, relatava histórias... sempre regadas ao bom humor. Mas, no momento mais esperado, quando ele deveria falar de jornalismo com alguma propriedade – afinal, o cara foi um dos responsáveis por uma “revolução” no modo de fazer jornalismo esportivo, ou, pelo menos, era o que se dizia –, só decepção.

O jornalista começa a distorcer todo o básico da profissão e argumentar a falta de ética, baseando-se em princípios empresariais. É nesse momento que, ou você se retira, ou você fica curioso o suficiente pra saber quanto mais de besteira ele consegue falar. E o pior: aclamado por uma grande plateia de futuros comunicadores. 

Quando você ouve coisas do tipo: “Eu saí de jornalismo na PUC porque eu não aguentei", você pensa que o cara só poderia mesmo estar tirando onda com os estudantes. A coisa piora quando ele – formado nos Estados Unidos (grandes coisas!) em Psicologia e um curso similar a Rádio e TV – dispara que estudar gente maluca é legal (?).

Bom, essa é a hora que você tem certeza que está em um show estilo Stand Up Comedy, mas direcionado aos comunicólogos. Como se fosse um showzinho particular direcionado a um público específico. Até porque, só quem é comunicador – e que tem algum respeito pela profissão que exerce ou exercerá – sabe como é frustrante ouvir de alguém inserido e com visibilidade no mercado absurdos como: “Televisão não tem papel de educar. Quem tem função de educar é o governo”. Isso, para justificar a falta de ética e compromisso da emissora na qual essa “celebridade” trabalha. E, quando se pensa que nada pode piorar a situação... a sua consciência é destroçada com os aplausos arrebatados no auditório.

Para um jornalista de renome, a palestra foi incrivelmente humorística – quase inacreditável a qualquer colega de profissão que preze pelo que faz. Mas, de jornalistas engraçados o mercado está cheio, não é mesmo?! Difícil, atualmente, é achar os éticos.

Acaba a conferência e chovem pessoas em cima dele para pedir fotos, autógrafos, abraços, estágio... uma confusão. Quem observava de longe, jurava que era o tumulto de um artista internacional chegando a um show em meio aos fãs.

Cerca de uma hora após a palestra, quando o jornalista celebridade já tinha se livrado do tumulto, descubro que ele está “passeando” pelos corredores da universidade. Estava cercado por alguns alunos (na maioria, mulheres) e seu assessor (ou empresário) estava impaciente. Estavam sabatinando, elogiando, se jogando em cima dele. A preocupação era saber se ele estaria ou não na festa que haveria na praia do hotel onde estava hospedado, se estava acompanhado, se queria conhecer as mulheres da cidade.

Constatei naquele momento como é triste o jornalismo no Brasil. Não porque todos os profissionais sejam incompetentes (de maneira nenhuma!). Mas porque basta aparecer um rostinho bonito, engraçadinho, sem conteúdo, para ganhar a audiência de boa parte dos brasileiros. 

Uma coisa é fazer do jornalismo esportivo um assunto mais leve. Outra, totalmente diferente, é fazer piada com os princípios da comunicação e achar que todo mundo vai engolir e aplaudir como numa política de pão e circo. Pior que, às vezes, isso realmente acontece.