terça-feira, 6 de julho de 2010

Mais um no hall dos condenados

“A história se repete”. Tão clichê quanto esse dito popular, é a atuação dos jornalistas brasileiros em reportagens policiais. Depois de passar por casos como Escola Base, Isabella Nardoni, Eloá Cristina e vários outros menos famosos, ganha os palcos midiáticos o caso Eliza Samudio.

Não é que essas histórias devessem ser omitidas. Mas há de se convir que a imprensa brasileira não anda lá tão ética como as propagandas dos meios de comunicação afirmam. Presenciamos, novamente, um julgamento dos repórteres que, não contentes em explorar os fatos com sensacionalismo, querem dar uma de “super herói de quadrinhos” e apontar o que é certo e o que é errado.

Também não se trata de uma questão de dizer que o goleiro Bruno – suposto assassino de Eliza – é inocente. Mas não se pode condenar um ser humano, por mais que as evidências contra ele pareçam ser incontestáveis. Ainda não consta no papel do comunicador a função de juiz, pelo menos não na teoria.

E esse caso, como muitos outros, é apenas um reflexo da realidade na qual convivemos, na qual é fácil apontar os erros dos outros e esquecer-se dos seus. É muito simples dizer que esse ou aquele é “monstro”, “crápula”, “assassino”, “cruel”. Difícil mesmo é apontar provas concretas nas matérias jornalísticas. Sim, o nosso jornalismo, infelizmente, ainda é declaratório, feito de “disse me disse”. Muito se especula e pouco se comprova.

Dizer que só é pra ser feita uma matéria quando houver absoluta certeza e após todos os fatos apurados é utopia, obviamente. Quem conhece a rotina da reportagem de rua sabe quão difícil é correr atrás de fontes, de histórias, de testemunhas. E há muita pressão nesse processo. Pressão de um empresário que quer seu meio de comunicação lucrando. Pressão dos outros jornalistas e críticos. Pressão de toda uma sociedade de lê o que você escreve.

Se formos esperar que o fato seja consumado por completo para então divulgá-lo já não é mais jornalismo. Reportagem é pressa, é stress, é conflito. Não importa se o assunto é da editoria de polícia ou não.

No entanto, os comunicadores pouco estão exercitando sua versatilidade – o “jogo de cintura” – e sua ética profissional. É mais simples dizer (não necessariamente com esses termos) “o goleiro do flamengo matou a namorada”. Até vende mais.  Parece ser muito complicado explicar que essa decisão não depende do jornalista que está escrevendo, mas de um judiciário moroso e falho, como o ser humano, como o goleiro pode ou não ter sido no caso. É mais fácil vestir a “capa de Deus” e dizer “o que realmente aconteceu”.

Eliza Samudio deixou o anonimato de uma forma não tão convencional para uma jovem de sua idade. Já não se pergunta sobre onde Eliza andaria a este momento, mas onde seu corpo estaria enterrado.

Se bem que, mesmo que ela aparecesse novamente – e viva –, talvez ela ainda estaria morta. Milhões de brasileiros continuariam pensando que ela morreu, porque a mídia não é tão boa para se retratar, quanto é para formular acusações. Em vez de uma manchete, como na acusação do goleiro, quem sabe os jornais da vida, quando muito, não colocariam uma notinha de duas linhas no meio de um caderno esquecido sobre isso?!

Ainda há pessoas que pensam que os donos da famosa Escola Base são monstros abusadores de criancinhas. Quase uma historinha de terror da Carochinha contemporânea. Porque a imprensa não fez o mesmo escarcéu para admitir seu erro quanto o que foi feito acusando precipitadamente os suspeitos. É a credibilidade jornalística indo por água abaixo.

Garanto que jamais o goleiro Bruno será visto da mesma forma. Independentemente de sua culpa ou inocência no caso. O filho do goleiro com a jovem desaparecida terá um estigma pro resto da vida em sua história. Mas, quem se importa, não é mesmo?! O importante é vender notícias. Altruísmo? Já não se sabe mais o que isso significa.

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