terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A visão de um passado sempre presente na imprensa

A obra “Os jornalistas” de Honoré de Balzac traz uma crítica elaborada e muito atual sobre a imprensa, seus mecanismos e os profissionais que a compõem. Ela atravessa o tempo, pois apesar de concebida no século XIX, essa espécie de “radiografia” da imprensa parisiense se encaixa com bastante propriedade na realidade midiática brasileira do século XXI.

São dispostas variedades de jornalistas, variedades desse profissional enquanto homem de estado e outros vários tipos facilmente reconhecíveis na maioria das redações. São publicistas, incrédulos, profetas, panfletários, agregados... Entre os três subtipos de “Diretores-Redatores-em-chefes-proprietários-gerentes”, podemos identificar alguns donos de meios de comunicação piauienses como Paulo Guimarães e Hélder Eugênio, por exemplo, e traçar paralelos até mesmo com grandes nomes do jornalismo brasileiro, como Assis Chateaubriand e Samuel Wainer. São muitos os ambiciosos, homens de negócios ou taxados como “puro-sangue”. Pode até parecer acidez demais, mas não há quem possa negar a veracidade das palavras de Balzac: “Todas as folhas públicas têm por leme uma saia de baixo em crinolina, absolutamente como na antiga monarquia”.

Honoré de Balzac pontua que é preciso aumentar a massa de assinantes para que não haja decrescimento, mas há quem duvide disso ou dissimule a realidade. Nenhum dos três chefes de redação de jornais impressos em Teresina admite estar em decréscimo, mesmo afirmando que o número de assinantes não aumenta. Ao contrário, várias promoções surgem todos os dias para tentar convencer as pessoas a consumir informações velhas e mal elaboradas, sem um diferencial que justifique o aumento do número de assinantes – já que as bancas vendem quantidades irrisórias.

Há também os profissionais, segundo Balzac, que, seguindo a linha de cada veículo, posicionam-se na totalidade das situações ou em um molde “ministerial” ou em um molde “oposicionista”. É uma constante de afirmação ou negação todo o tempo – ratificando o excesso de mediocridade e a falta de criticidade dos meios que deveriam, em tese, levar informação “imparcial”. Ou depara-se com um meio de oposição, que defende tudo que é contrário ao governo de situação por “birra”, ou com um veículo “chapa-branca”, para o qual o governo é sempre o melhor dos últimos tempos.

A liberdade de imprensa, na obra “Os jornalistas” é desmistificada. O autor expõe claramente que não há total liberdade em nenhum meio de comunicação. Da mesma forma, há componentes do jornal que sempre ligam-se à opinião dos jornais por meio de frases. Há os que sé falam – e bem – dos políticos convenientes à linha editorial do veículo.

Uma outra frase crucial de Balzac para entender algumas atitudes de meios de comunicação piauienses, sobretudo os “chapa-branca”: “Quanto mais um homem político é nulo, melhor ele é para se tornar o Grande Lama de um jornal”. Essa afirmação explicita bem o posicionamento de veículos (e seus jornalistas) que, enquanto a situação está no poder, fazem um discurso positivo sobre ela e, quando a oposição alcança os altos cargos, o discurso apenas muda de lado. As convicções ficam de lado, só os interesses prevalecem.

A crítica inteligente não é mais uma atração dos impressos. No máximo, ela tenta sobreviver. As tentativas são muito artificiais e, por vezes, recaem na superficialidade. Não há contextualização, nem profundidade. Entre universitários, mundanos, negadores, farsantes e incensadores, executores e efuístas, o fato é que a imprensa está carente de profissionais com diferencial.

“Para o jornalista, tudo que é provável é verdadeiro”. Essa citação de Balzac resume bem o jornalismo praticado atualmente em muitas redações: sem aprofundamento e variedade de fontes, parcial, sem apuração e investigação. Falta-lhe o básico e essencial à profissão. Não importa quantas sejam as variedades que compõem os publicistas e os críticos, o fato é que os meios e os jornalistas precisam de um choque de ética e de realidade para voltar ao cumprimento de suas funções primordiais.

3 recados de geladeira:

Ludmila Monteiro disse...

Qual é esse livro do Balzac?!
Eu comecei Ilusões Perdidas, que tem a história da imprensa de que você fala como um dos focos da narrativa.
Também li e identifiquei várias coisas que ainda acontecem ou são situações muito semelhantes do jornalismo da época pro jornalismo de hoje.

Ludmila Monteiro disse...

Ah, uma sugestão: como os textos que tu coloca aqui são grandes, é melhor dar uma cor mais clean ao blog. Preto cansa ainda mais a vista. =)

オテモヤン disse...
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