quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O processo de midiatização e o sensacionalismo que dele decorre

O processo de midiatização dá-se em um contexto no qual a globalização, juntamente com o aperfeiçoamento e convergência das tecnologias midiáticas, redimensionou a atuação dos meios de comunicação tradicionais, interferindo no cotidiano dos atores sociais. Diante dos entrecruzamentos entre mídia e sociedade, a partir das inovações advindas com os meios digitais, os meios de comunicação tradicionais estão modificando-se, seja na produção, edição ou recepção. As tecnologias midiáticas passaram a mediar práticas diárias e até mesmo relações particulares, participando de fenômenos como a espetacularização do cotidiano.

A internet possibilitou que as práticas e relações sociais passassem a basear-se em lógicas midiáticas e mercadológicas. O que antes era tratado apenas como aparato técnico-funcional – as tecnologias midiáticas – passou ao status de mídia, mediando simbolicamente as relações e fazendo parte delas. A cultura midiática passa a ter forte influência sobre a vida em sociedade.

Ao contrário do que outros teóricos pensavam, a maturação e convergência das tecnologias não uniformizaram a sociedade, e sim a segmentaram ainda mais. Fausto Neto afirma que os estágios de linearidade dão lugar às descontinuidades, às heterogeneidades. Isso é perceptível na sociedade atual quando observamos a constante criação de novas tribos, de novos estilos e filosofias de vida, nos quais a repercussão midiática interfere. Dessa forma, os processos de midiatização afetam e reconfiguram as práticas e relações sociais.

A popularização de tecnologias como câmeras digitais, celulares e da própria internet (webcams, blogs, fotologs, redes de relacionamento) geraram uma tendência à virtualização – mudando, assim, as noções de tempo e espaço. A midiatização, de uma forma geral, proporcionou novas possibilidades de reconhecimento dos discursos e ampliou as estratégias de interação.

Os campos e atores sociais são agora submetidos a novas situações e necessitam de novas estratégias de sobrevivência, ligadas ao interesse pelo status e visibilidade perante a estrutura social. O espetáculo do comum visa o ingresso do indivíduo e de sua realidade no domínio da mídia massiva, expondo-se em busca de visibilidade – que será conferida a partir da exposição do privado, do íntimo. Surge, a partir daí, a possibilidade de o indivíduo transformar-se em sua própria mídia e criar seu próprio público, bem como predominância da aparência e da exterioridade em detrimento da essência e da interioridade.

O espetáculo panóptico traz um efeito real da constante sensação de vigilância, a partir da interiorização do outro, em uma passagem de vigilância para auto vigilância na qual sempre temos a impressão de estarmos sendo observados e, por isso, vivemos em uma permanente representação. Nessa constante representação – carregada de artificialidade –, o sujeito vai “vivenciar” uma vida e desejos falsos, porque o espetáculo é exterior ao sujeito. O indivíduo vai representar sua vida em vez de vivê-la e a indústria do consumo vai vender a possibilidade desse indivíduo ser quem ele quiser, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação assumem um papel de onipresentes.

Já o espetáculo sinóptico (relacionado à mídia televisiva) vai retirar o foco do indivíduo comum e desviá-lo às celebridades e popstars que emergem diariamente no mundo das TVs. Da mesma forma, haverá uma multiplicação de celebridades nos reality shows e na internet, em um processo de publicização do comum, do ordinário.

Concomitantemente, a imprensa despreza o que um dia foi sua “missão”, de formar a opinião pública, e passa a preocupar-se estritamente com a prestação de serviço, abrindo espaço para o sensacionalismo e o espetáculo na sua programação. Há uma atualização nas consequências da indústria cultural e seus efeitos ideológicos, sobretudo, em relação à grande imprensa, que não cede mais tanto espaço para pautas alternativas.

O papel tradicional da mediação por parte da imprensa contemporânea entra em crise a partir do momento que assuntos relevantes e de interesse público deixam de ser abordados em detrimento de notícias relacionadas a essas novas e instantâneas celebridades que o espetáculo produz.

Essa mudança de foco informacional não pode ser encarada como uma simples adesão ao sistema proposto pelo espetáculo, mas como uma forma de “distrair” os indivíduos quanto a assuntos que poderiam despertar criticidade. A imprensa, assim, mergulha em uma tentativa de mediocrização de seu público, para não perder audiência, temendo a percepção de sua queda de qualidade e da deturpação de seus valores iniciais.