Gilberto Freyre
Muito além de grande cientista social e jornalista, um visionário que marcou época
Por Tamires Coelho
Gilberto Freyre nasceu em 15 de março de 1900, em Recife, e, para entender o trabalho que Freyre desenvolveu, é preciso, antes de tudo, entender quem ele era. Com uma história particular, desde a infância, foi uma pessoa apaixonada por cultura, livros e manifestações sociais.
A infância de Gilberto Freyre mostra que ele não seria um menino comum: Gilberto não começou a ler e escrever na faixa etária considerada ideal e comunicava-se através de desenhos. Ele conseguia expor seus pensamentos e expressar seus sentimentos através de suas gravuras e, quando passou a ser alfabetizado, o foi primeiramente em inglês. Posteriormente, ele viria a aprender português e diversas outras línguas.
Em 1918, ainda com 17 anos, matriculou-se na Universidade de Baylor, Texas (EUA). A partir daí, ele começou sua trajetória jornalística, quando começou a colaborar regularmente com o Diário de Pernambuco. Nos Estados Unidos, ele teve contato com novas tendências e correntes teóricas, como a de um jornalismo mais ágil (resultado do processo da Revolução Industrial), com uma linguagem mais objetiva e precisa. Esse contato vai influenciar, depois, no modelo de jornalismo que Freyre vai implantar no jornal A Província e na sua contribuição com o Diário.
Os Estados Unidos, à época em que Gilberto Freyre estudou lá, já era um país com um sistema sócio-cultural muito diferente do brasileiro, especialmente quanto ao seu desenvolvimento tecnológico e avançado quadro da imprensa. O pensador brasileiro encontrou um jornalismo que visava os grandes números e em um contexto no qual sobressaía-se o jornal World, de Joseph Pulitzer – fundamental no estudo do “novo jornalismo” e da “imprensa marrom”. A modernização do jornalismo traz consigo a especialização das atividades, transformando as empresas jornalísticas em termos quantitativos e qualitativos, com inovações técnicas e administrativas.
Quando retorna ao Brasil, Freyre torna-se redator-chefe do Diário de Pernambuco, um periódico com o qual estabelece uma relação de intimidade, a ponto de essa relação explicar a própria relação entre o “Gilberto jornalista” e o jornalismo. Gilberto Freyre publicou nesse jornal de maneira assídua e ininterrupta durante 69 anos, totalizando 2.201 artigos, e foi através desse tradicional meio de comunicação que ele se inseriu na intelectualidade pernambucana.
Gilberto Freyre, em seus posicionamentos políticos, deu margem para que seus estudiosos formulassem hipóteses quanto aos seus usos de mídia. Entre essas hipóteses está o trato da imprensa como palanque de suas ideias, na condição de jornalista ativo; e o uso da mídia como fonte para suas pesquisas. O papel de jornalista ativo e defensor de causas à frente do seu tempo, como da conservação da Amazônia ainda na década de 70, mostra como a imprensa difundiu os ideais desse pensador. A mídia também serviu como fonte para suas pesquisas como cientista social, como, por exemplo, para reunir subsídios que resultariam, mais tarde, em grandes obras como Casa Grande e Senzala, sua obra prima.
O ecletismo de Freyre está expresso não só nas suas produções e ideias, mas também nas suas influências. Como intelectual que era, foi influenciado por grandes e distintos nomes como Eça de Queiroz, Goethe, Joaquim Nabuco, Leon Tolstói e até a Bíblia. A contribuição de Tolstói está muito relacionada ao seu modo de fazer um jornalismo de campo: “Vai ao povo e procura compreendê-lo”.
Como cientista social, Gilberto Freyre dirigiu o primeiro curso de Antropologia Social e Cultural da América Latina. A interferência dessa face de antropólogo e sociólogo é perceptível na sua obra jornalística, especialmente no que concerne à sua defesa do jornalismo de campo em detrimento do jornalismo de gabinete. Ele mesmo dizia: “Jornalismo de campo é o verdadeiro jornalismo!”. Mesmo com tantas ideias inovadoras para a sua época, todos os estudiosos o conhecem como grande escritor e sociólogo, mas poucos associam Freyre ao jornalismo.
Para o professor Fernando Mota, de Ciência Política - Universidade Federal de Pernambuco-UFPE, um dos grandes estudiosos de Gilberto Freyre, cuja tese de doutorado, inclusive, é voltada ao escritor, sociólogo e jornalista pernambucano, Freyre foi muito pioneiro em seu trabalho. “Já nos anos 30, em Casa Grande e Senzala (sua maior obra), ele já trata da preservação, do desequilíbrio da monocultura da cana-de-açúcar”, explica o professor da UFPE. Mota atribui o estilo límpido, claro, objetivo e didático de Freyre escrever suas obras à atividade jornalística que ele desempenhava.
O professor Mota acrescenta ainda o trabalho do escritor, que também fez parte da Academia Pernambucana de Letras, em antecipar questões sociais. Fernando Mota explica que Freyre, quando volta dos EUA, traz inovações do jornalismo de lá e faz comparações entre a cultura brasileira e a norte-americana, amadurecendo ideias para a obra Casa Grande e Senzala.
“Muitos escritores vivem de emprego público, em universidades. Intelectuais, geralmente, não ganham dinheiro escrevendo. Gilberto já desenvolveu essa consciência profissional. Ele sobreviveu escrevendo”, acrescentou o docente pernambucano sobre as peculiaridades e inovações de Gilberto Freyre.
Um aspecto interessante que esse estudioso coloca é a característica narcisista de Freyre, o que pode ser observado inclusive nas próprias palavras do cientista social e jornalista: “Já fiz n’A Província algumas das coisas que desejava fazer. Seu noticiário é hoje o mais exato, o melhor, da imprensa do Recife, e talvez do Brasil”. Gilberto Freyre se considerava um grande intelectual, um gênio e o reconhecimento dessas características em outras personagens resultavam em conflitos e desafetos, como ao escritor modernista Mário de Andrade, que, na opinião de Fernando Mota, foi o maior rival de Freyre.
Apaixonado por livros, por cultura e até mesmo por receitas culinárias (as quais lhe serviram de base para o livro Açúcar), Gilberto Freyre colecionou uma verdadeira biblioteca, na sua casa em Apipoucos, Recife. Muitos volumes literários são dedicados às manifestações culturais recifenses, pernambucanas, nordestinas, e de outros países. Estudioso ligado ao regionalismo, fazia muitas críticas às correntes modernistas, que, aos seus olhos, eram apenas a injeção da cultura e arte européias no Brasil, desconsiderando o vasto conteúdo a ser explorado na própria cultura brasileira, sobretudo nordestina.
Muitos estudiosos de Gilberto Freyre consideram que, apesar da importante contribuição no Diário de Pernambuco, o maior feito jornalístico dele foi a fundação do jornal A Província. Nele, Freyre exercitou, experimentou, inovou e teve contribuição de muitos intelectuais renomados como Manuel Bandeira. Foi a grande aventura nos campos do jornalismo para ele, que foi diretor do impresso entre 1928 e 1930, até a Revolução de 30 impedir sua circulação e Freyre ser exilado.
A Província foi um jornal concebido para ser inovador e dentro de parâmetros até então desconsiderados importantes como o afastamento econômico com o Estado. No próprio jornal, ele publica poucos artigos: apenas 75. Aspectos estilísticos como clareza e objetividade foram aplicados neste impresso. O uso de uma linguagem mais flexível e objetiva, mais simples, era apenas reflexo da percepção de que a comunicação estava passando por um processo de massificação e dinamização. Freyre, nesse sentido, concebe o processo comunicacional não apenas centrado no emissor, mas também dependente da recepção.
Foi Gilberto Freyre o primeiro idealizador de um manual de redação jornalístico, denominado Placard. Ele trazia orientações aos jornalistas para uma escrita correta e clara, de maneira simples. Esse manual era uma folha de papel, com regras, afixada no mural da redação do jornal. Ao passo que era simples, ele também trazia normas de orientação sobre como trabalhar com o público – o que é outro aspecto que fortalece a ideia de preocupação com o leitor, por parte de Freyre. Ao se preocupar com a qualidade e o estilo do texto, ele se antecipa em mais de 70 anos às orientações de manuais conceituados como o do Globo, do Estado de S.Paulo e da Folha, que trazem consigo ainda as orientações propostas por Gilberto Freyre. O primeiro manual não teve êxito imediato mas foi um dos principais alicerces sobre os quais se firmou o jornal impresso A Província.
Em 11 de março de 1987, o intelectual crítico e irônico que ainda escrevia no Diário de Pernambuco decide transformar sua residência em uma espécie de memorial, para, definitivamente, ficar marcado na história. A casa de Apipoucos, que foi, anteriormente, uma casa grande de engenho, torna-se a Fundação Gilberto Freyre. Um mês depois, ele começou a ter complicações de saúde.
Até na sua morte, Gilberto Freyre traz consigo fatos curiosos. Ele morreu às quatro horas da madrugada de 18 de julho de 1987, aniversário de sua esposa, Madalena Freyre. Madalena Freyre só faleceria dez anos depois, e, devido a alusão trágica à data, durante esses dez anos, a viúva de Freyre não comemorou mais seu aniversário de nascimento.
Gilberto Freyre sai de cena fisicamente e entra para a História, como um dos maiores cientistas sociais e jornalistas, inclusive com o devido reconhecimento internacional. Suas obras e sua abordagem social até hoje são atuais. O seu jeito de expor jornalisticamente os fatos é, basicamente, o que os professores tentam ensinar nas salas de universidades.
Comentário pessoal sobre o jornalista Gilberto Freyre:
Gilberto Freyre foi, sem dúvidas, um dos maiores intelectuais que o Brasil tem a honra de elencar na sua história. Ele foi um pensador e, sobretudo, um ator social excepcional! Seu reconhecimento internacional é apenas o reflexo de tudo que ele plantou em vida e na eternidade – a partir de suas obras imortais. Sua face como jornalista, apesar de pouco explorada, não é por isso menos importante: o criador do primeiro manual de redação e estilo para jornalistas, desde cedo, preocupou-se em como os fatos seriam compreendidos pelo receptor. Talvez seu caráter narcisista se devesse a um intelectualismo tão apurado, a ponto de reconhecer a si mesmo como um visionário – a partir de um balanço de seus feitos para contribuir com a Comunicação Social, que por muito tempo não se importou com o “social”. O seu estilo sedutor e simples de escrever e de conseguir apaixonar o leitor conquista fãs até hoje, porque sua obra é atemporal e traz uma análise que, mesmo que não contemple muitos aspectos importantes para alguns críticos, não pode ser desconsiderada jamais, por trazer de modo pioneiro visões inéditas quanto à construção social brasileira. A linha tênue entre as características próprias de cientista social e as de jornalista contribuiu visivelmente para as obras de Freyre nos dois campos do conhecimento.
2 recados de geladeira:
Confesso que de Gilberto Freire conheci apenas Casa Grande e Senzala, fruto de algumas disciplinas pagas durante o curso de jornalismo no CCHL. Entretanto, deu pra ver que esta tendência a fazer grandes registros vinha de além das páginas daquela que é considerada sua obra prima.
Também acho que Freyre teve uma melhor didaticidade por intermédio do jornalismo, que ajuda muitos de nós a melhorar o estilo. Beleza, visitarei quando puder, sempre que possível!
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