Mesmo chovendo muito, a encenação do Grupo de Teatro Monte Castelo reuniu milhares de pessoas e contou com uma produção especial
A crise afetou também a cultura: o espetáculo “Paixão de Cristo” do GTMC (Grupo de Teatro Monte Castelo), o mais famoso do gênero em Teresina, conseguiu fazer uma apresentação profissional, apesar da escassez de recursos. A apresentação realizada na sexta-feira santa teve como principais cenas o julgamento de Jesus Cristo, o enforcamento de Judas Iscariotes e a Via Crucis. Os momentos culminantes da dramatização giraram em torno da Crucificação e Ressurreição do homem mais aclamado pelos cristãos.
A noite foi marcada por uma produção atenta e organizada, muita beleza e comoção do público. A platéia gostou tanto do espetáculo, que nem a chuva conseguiu afastar as milhares de pessoas reunidas em frente aos cenários.
O grupo produz o espetáculo há 21 anos, contando, atualmente, com a participação de 200 profissionais. Segundo José Ribamar de Sousa, que interpretou um dos legionários de Pilatos esse ano, é o integrante mais antigo do grupo – está há 19 anos no GTMC. Quando perguntamos sobre as principais mudanças desde as primeiras apresentações do grupo, ele diz “Modificou muito porque, naquela época, nós não tínhamos um espetáculo de grande porte e, hoje, nós temos”. Ele considera o espetáculo do grupo Monte Castelo um dos melhores do Nordeste e que, atualmente, há um público muito grande nas apresentações, “uma fiel platéia”, como ele mesmo denominou.
Veridiane Andrade interpretou Salomé, na quinta-feira, e Cláudia (esposa de Pilatos) na sexta-feira. Ela garantiu que a sexta-feira santa, por ter a encenação da crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e o dia mais importante e esperado. Ela fala que a preparação, para um espetáculo como esse, é principalmente espiritual. Ela também comentou imprevistos como, por exemplo, um colega do grupo que, no primeiro dia de apresentação, torceu o pé e teve que engessá-lo. Veridiane diz que esse foi seu primeiro espetáculo e que se impressionou com a receptividade por parte da platéia: “A receptividade é muito calorosa. Até nos ensaios que a gente vem fazer, vem gente assistir. Teve gente que chorou vendo a gente encenando”.
Dilmo Carvalho, que interpretou Jesus Cristo nos três dias de apresentações do grupo e já está pela quarta vez representando neste papel, disse que fazer Jesus é difícil: “porque Jesus é uma pessoa polêmica e provocava uma sensação nos poderosos que eles tinham medo de ele tomar o seu poder. E isso levou à morte de Jesus”. Sobre os rituais de preparação, ele afirma que há a preparação espiritual, mas a do corpo é também imprescindível e chega a exigir práticas de educação física e academia. Dilmo afirma que não é fácil carregar a cruz, que pesa 40 kg, e ficar em cima dela por um período de cerca de 30 minutos.
O cenógrafo do grupo, Luis Tito, a preparação iniciou-se desde janeiro de 2009 e foi necessário buscar patrocínios que viabilizassem a produção cujo orçamento ficou por volta de R$ 100 mil. “Infelizmente, tivemos apenas 10% da verba que o espetáculo precisava para ser realizado”, disse ele referindo-se aos cortes que o governo fez diante da crise econômica.
Esse ano, o evento foi prestigiado por autoridades como o governador do Piauí, Wellington Dias, e pelo deputado João Madison. W.Dias disse que parte da verba havia sido liberada na quinta-feira anterior à semana santa e que, medidas de corte foram tomadas como forma de adequação do Piauí ao novo cenário econômico.
O governador também afirmou que o que pode ser observado no Monte Castelo é uma profissionalização cada vez maior, e recordou a forma improvisada das primeiras apresentações, que não contavam com muitos recursos, não tinham cenários adequados e o figurino era também improvisado – o que difere da infraestrutura do grupo hoje. Ele afirmou que fica muito feliz e orgulhoso com o resultado das escolas de teatro piauienses que, segundo ele “dão show”.
Wellington garantiu que os eventos culturais do estado estarão entre as prioridades do governo, mesmo diante da crise, e que todos os eventos programados acontecerão. Mas advertiu que os projetos novos terão que aguardar a crise para entrarem em ação.
A Polícia Militar informou que não foi registrado nenhum tipo de violência até o 3º dia de espetáculo. O que pode ser constatado, no entanto, foi que, na sexta-feira, houveram muitas brigas nas ruas adjacentes aos palcos, inclusive com pedras e garrafas sendo arremessadas por alguns elementos. Algumas testemunhas saíram do espetáculo com medo e afirmaram que as brigas estavam relacionadas a drogas.
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